Lua Barros

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Meninas que comem

Comida, presença e a construção de um lugar seguro

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Lua Barros
jan 27, 2026
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Canetas para emagrecer não fazem sucesso à toa. Ser magra ou ter controle absoluto do que se come tem a ver com questões profundas, muitas delas com raízes na infância, de um corpo feminino que existe desde sempre para agradar, para caber.

As chamadas canetas para emagrecer são o capítulo mais recente de uma indústria bilionária que lucra ensinando mulheres a desconfiar da própria fome. Vendidas como solução médica e moderna, prometem controle, redução e silêncio. Valores que dialogam com uma cultura que prefere mulheres menores, menos desejantes, menos visíveis.

Ontem foi aniversário da minha filha e, aqui em casa, a comida conquistou um lugar de celebração. Tem café da manhã na cama e o aniversariante escolhe o cardápio do dia. Ela quis almoçar lasanha, e eu achei simbólico. Esses dias, ouvi de uma mãe que menina comilona é feio e que a sorte de comer até encher só os meninos têm. Uma violência silenciosa, disfarçada de polimento e cuidado. Uma briga com o corpo que começa quando ainda somos muito pequenas para entender ou nos defender.

Eu, que já me impus restrições severas com a comida para atingir parcos 49 quilos, hoje observo com atenção meus próprios movimentos e, outro dia, me emocionei com a força que isso pode ter na vida das meninas. Se tudo ao nosso redor nos diz que nossos corpos são demais, que é preciso ser menor ou ter menos fome, a gente precisa evocar outras vozes, por mais difícil que seja.

Eu já tinha me comprometido a não falar sobre o meu corpo na frente das minhas filhas, mas as caras e bocas de desaprovação ainda me escapam. Nesse dia, eu tinha acabado de fazer minha aula de ginástica e estava com um short curto, que não costumo usar. O comprimento da roupa mostrava mais do que eu estou habituada e, diante de um espelho no quarto, eu olhava e franzia a testa, como quem diz: que horror! Foi aí que minha filha chegou e disse espontaneamente:

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