Mãe de menino
Meninos ainda não são homens. Mas serão. Até lá, tem muito trabalho pela frente. E o trabalho não é só da mãe.
Eu tinha 7 anos quando minha mãe pediu que eu não ficasse só de calcinha pela casa. A puberdade precoce chegou mudando meu corpo e mesmo sendo uma criança, peitos e pelos começavam a aparecer, me forçando a deixar de lado o hábito de andar quase pelada. Dizem que as meninas amadurecem mais cedo e colocam isso na conta da biologia, mas a real é que a sociedade nos empurra, sem qualquer cerimônia, para esse lugar. Nos fazem assumir responsabilidades mais cedo, nos fazem lidar com olhares (e comportamentos) que nos sexualizam, nos fazem acreditar que precisamos cuidar de todos ao nosso redor. Ou seja: não temos exatamente muitas opções, se não amadurecer.
O pedido da minha mãe era um cuidado, mas era também uma sinalização de algo que eu levei muitos anos para compreender, porque, como já contei aqui, esse processo da puberdade precoce foi vivido na minha família de uma forma muito natural. Esse corpo que despontava, forçando minha despedida da infância, nunca foi motivo de vergonha ou medo. Cresci protegida por um manto invisível que me permitiu chegar à vida adulta sem qualquer tipo de violação. Não faço parte das estatísticas.
Só quando minhas filhas chegaram, eu entendi o perigo. Mas a vida me deu a oportunidade de ser de meninos também. E aí o nó era outro. Ou outros.

