Insuportável
As redes sociais estão consolidando a nossa incapacidade de olhar para nossas vidas. Olhamos só a vida dos outros.
Tudo começou com o blog Amei! em 2008. Eu morava em São Paulo, era mãe de um menino fofo e tinha uma vida que me empolgava, me deixava genuinamente feliz. Como eu estava longe dos meus maiores afetos, a internet funcionava naquele momento como um grande mural de avisos, desses que a gente passa, para, olha e descobre que vai ter um curso muito legal de culinária ayurvédica, que era justamente o que você estava procurando. No mural tinha também informações sobre gente que queria dividir casa, notícias relevantes que precisavam ser espalhadas, dicas, perguntas e algumas imagens feitas por xérox, que dava um tom ainda mais sólido para o que estava sendo partilhado ali.
O blog era o mural da minha vida.
Eu queria partilhar o que eu via e descobria. Queria dividir com as pessoas as minhas impressões sobre quem eu estava me tornando, a cidade na qual eu estava morando, o que eu estava vestindo. E eu fazia tudo isso através de textos e fotos que eu tirava na frente do portão terracota da casa na qual eu morava. Era muito divertido.
Ter blog não era uma profissão para mim. Era um passatempo muito massa e isso durou um tempo até que migrei só para o Instagram, ainda fazendo partilhas bem pessoais. Depois mudei de carreira e segui dividindo. Depois tive mais filhos e foi aí que eu comecei a dividir mesmo. Mudei de cidade e tinha era coisa para dividir, até que tive mais filhos e mudei de novo de carreira. Só que esse tanto de partilha se tornou algo além da partilha em si. Se tornou um trabalho ou um jeito de falar sobre o trabalho.
Eu sou uma dessas pessoas que se gaba ao dizer que quando começou "tudo isso aqui era mato". Um mato bom danado, cheio de gente massa querendo se conhecer, trocar, aprender. Um mato onde cabia a vulnerabilidade, sem disputas, onde o tempo era nosso aliado e não um grande obstáculo. Onde o outro, esse grande desconhecido, era alguém para quem eu olhava com admiração e não com medo ou raiva. E talvez essa seja a maior diferença que sinto observando a travessia desses anos em que a internet faz parte da minha vida.
Por alguma razão, passamos a perceber quem pensa diferente ou quem diz algo que eu discordo, como um inimigo que precisa ser combatido, retaliado, apontado e se for o caso, xingado. Não nos contentamos apenas em discordar e seguir a vida, passar reto. Não. Acreditamos que é preciso parar, gastar o nosso tempo, nossa energia, nossa saúde mental com quem não conhecemos, não são nossos amigos e não fazem parte dos nossos afetos. Acreditamos que a tela, esse dispositivo físico e real que nos separa, é menos importante do que a sensação de que algo precisa ser dito. Para os mais educados, os recursos passivos agressivos são um prato cheio. Para os menos, a violência se torna a linguagem preferida.
Eu costumo falar sobre (e agradecer por isso também) o curioso fato de que não tenho muitos haters. Falo com uma bolha deliciosa de pessoas que conseguem discordar sem atacar. Que conseguem seguir suas vidas sem perder tempo com comentários desrespeitosos ou mesmo grosseiros. Porém, tem algo que tem acontecido com mais frequência que é o apontamento quando eu não consigo abarcar toda a diversidade dos assuntos. Quando eu escolho falar sobre a minha experiência e, assim, deixo alguém de fora do meu discurso, quando eu falho em contemplar todo mundo que está precisando de um abraço, um colo, com raiva, triste ou frustrado com alguma coisa sob a qual eu não tenho nenhuma responsabilidade ou conhecimento, como se eu fosse uma grande salvadora ou alguém que não comete erros.
Eu acho isso insuportável.
Chato pra cacete.
E claro, muito, muito infantil, porque é durante a infância que a gente tem a ilusão de que o outro é o grande responsável pela dor que sentimos e sair desse lugar é o que nos torna adultos e finalmente autônomos.
Essa semana, depois de ver um recorte de 15 segundos de uma fala minha que tem uma hora de duração, uma moça veio comentar:
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